Do maternal ao magistério foram quinze anos. Nesses quinze anos passei por várias escolas públicas. Não mudava por vontade própria. A única vez que isso aconteceu foi quando decidi ir para a EE “Victor Maida” onde fiz a sétima e oitava séries. Eu morava na cidade de Ibitinga, interior do estado de São Paulo. As opções de escola eram pequenas. Geralmente se estudava perto de sua casa. Era difícil conseguir vaga em uma escola mais distante. Quando terminei a quarta série fui transferida automaticamente para a EE “Prof. Josepha Maria de Oliveira Bersano”, no período vespertino. Eu gostava de estudar no período matutino, mas não tive opção. Essa era a escola mais próxima da minha casa. Dois anos depois, em 1998, consegui vaga na escola “Victor Maida” onde as aulas eram no período da manhã.
O governador do estado, Mário Covas, havia separado as escolas por ciclos: ensino fundamental I, ensino fundamental II e ensino médio. E essa não foi a única mudança que percebi ter acontecido. Anos mais tarde, quando estava no primeiro colegial, percebi que o ensino fundamental II havia se juntado com o ensino médio novamente.
A escola “Victor Maida” foi a mais interessante de todas onde já estudei. Tanto pela sua estrutura, tanto pelos professores e colegas de sala. Portanto ela foi a escolhida para que eu fizesse esse trabalho.
Professores e suas aulas
Todos os professores desta escola tinham curso superior. Essa já era a exigência para se lecionar no ensino fundamental II.
A equipe de professores era muito articulada. Eles preparavam suas aulas e trabalhavam conjuntamente, formando uma interdisciplinaridade. Metade dos professores eram homens, metade mulheres. Diferente do que eu estava acostumada no ensino fundamental I, onde só tive professoras.
Eles foram os meus melhores professores. As aulas fugiam do “tradicional”.
Todo dia tinha “campeonato” na aula de matemática. Quem era o primeiro a entregar os exercícios respondidos corretamente, ganhava bônus. Se algum aluno atingisse 90% do total dos bônus distribuídos ao longo do bimestre, tinha o direito de escolher entre fazer ou não a prova bimestral. Nas aulas também assistíamos filmes, jogávamos bingo, etc. Elas eram inovadoras, diferentes e sempre estavam relacionadas com a atualidade.
Tenho contato e muita amizade com esse professor de matemática, João Carlos.
As aulas de ciências eram maravilhosas! Tínhamos um grande laboratório, em uma sala especializada. Tudo era muito antigo, mas muito conservado. Era a única escola da cidade que havia conseguido conservar o seu laboratório. Fazíamos experimentos químicos, estudávamos animais empalhados e animais peçonhentos. Havia também dois esqueletos, um de cachorro e um humano, encontrados no jardim da escola.
O professor Jacomini deixou as aulas alguns dias antes delas terminarem. Ele se aposentou no ano seguinte. Nunca soube o nome dele.
O local onde foi construída essa escola era um terreiro onde os negros celebravam sua religião. Por esse motivo alguns chegaram a ser enterrados nesse local. A fotono início do texto é do jardim de frente da escola, onde ao fundo da foto está um crucifixo que representa o antigo cruzeiro.
Nas aulas de educação física fazíamos diferentes esportes. A escola tinha duas quadras, uma coberta e a outra não. O professor Afonso treinava os alunos que eram do time da escola separadamente dos demais. Quem não fazia parte do time tinha aulas de ginástica, de corda e exercícios para aprender a jogar basquete, futebol e vôlei, etc.
Os alunos do time se misturavam com os outros apenas quando chovia, pois havia só uma quadra coberta. Mas essa interação não durava muito tempo. Os alunos que não eram do time prefiriam jogar xadrez, dama, etc.
O professor de educação física já estava bastante desanimado com o ensino. Ele nunca deixou de fazer seu trabalho, mas reclamava toda aula o fato de ser homem e ter que trabalhar cinco anos a mais que as mulheres – a esposa do professor era professora dessa escola e mesmo os dois tendo começado a trabalhar no mesmo ano, ela já havia se aposentado.
As aulas de educação artística também eram muito criativas. A escola não dispunha de material, mas com material reciclado e material comprado coletivamente conseguíamos fazer muita coisa legal. Além das aulas de pintura e de quadros aprendi a fazer artesanato. Uma dessas atividades foi uma pintura em prato de “porcelana”. O prato de “porcelana” foi feito com prato de papelão, desses de festa, pintado e envernizado. Por ser comprado coletivamente e em grande quantidade, o material tornava-se muito barato.
Minha professora de educação artística, professora Eliana, era muito ligada com a arte. Promovia exposições na cidade, pintava quadros, etc.
As aulas de história, geografia, inglês e português eram mais expositivas, utilizando materiais mais “tradicionais” como lousa, giz, livros, mapas, etc. Mesmo assim as aulas eram diferentes.
Minha professora de português era uma senhora que já estava para se aposentar. Havia sido diretora de escola na cidade vizinha por muitos anos. Mas só conseguiu se efetivar como professora, e no final da carreira. Por isso ela assumiu as aulas nessa escola. Era apaixonada por sua profissão e pela literatura. Os poemas que ela recitava pareciam música para os meus ouvidos. Essa professora, Maria Josefina, dizia que para entrar em uma boa universidade era necessário saber escrever bem, então ela ensinou como se fazia uma “dissertação”.
Foi nessa escola que tive minha primeira aula de história “crítica”. Era muito diferente do que havia aprendido. Eu reaprendi a história.
A professora Helena parecia uma líder política. Falava com convicção e contagiava todos os alunos. Ela sempre estava aberta ao diálogo para resolver problemas da escola.
As aulas de inglês eram muito esperadas por mim. Estava “descobrindo” o inglês por conta própria nessa época, então aguardava ansiosamente a hora de poder tirar dúvidas com a professora.
Ela tentava ensinar a pronúncia para a sala toda, mas não funcionava muito.
A parte auditiva era feita através da fita que vinha junto com o livro, onde podia ser ouvida a lição, os exercícios e alguns diálogos extras. A música era utilizada também, mas geralmente no final do bimestre, quando as lições do livro tinham sido terminadas.
A professora de inglês tinha “fama” de ser muito nervosa, pois quando se irritava com a conversa dos alunos ela batia a porta da sala fortemente. Então quando se escutava uma porta bater, mesmo que de longe, os alunos já comentavam: “olha, a Rosinha está dando aula!”. Mas essa era uma idéia errada que faziam da professora. Ela era muito compreensiva e se divertia com seus alunos.
Talvez a única aula que realmente pudesse ser classificada como “tradicional” fosse a aula de geografia. Eram aulas expositivas, cópias de mapas, nomes de países e capitais, etc.
O engraçado é que o professor de geografia era o mais novo da equipe. Era um professor recém-formado.
O aluno
Os alunos eram moradores da região da escola. A matrícula era aberta primeiramente para os que moravam próximos e caso sobrassem vagas eram aberta para outras comunidades.
Fui muito bem aceita pelos meus colegas nessa turma. Os amigos que ainda mantenho dessa cidade são os amigos dessa turma. Eu era a mais nova da turma, mas as idades praticamente regulavam.
Não existia discriminação por parte dos alunos e dos professores com alunos vindos de outras comunidades, ou alunos de diferentes religiões e cores. Eram todos muito amigos.
As aulas de história tratavam de diferentes etnias, religiões, mas sem nenhum preconceito ou constrangimento para os alunos. Como já disse acima, o terreno onde a escola foi construída era um cruzeiro onde os negros faziam seus cultos. Essa história era sempre contada, principalmente nas aulas de história. Elas geravam lendas que eram passadas de geração para geração. Havia um grande respeito com as diferenças.
Muita coisa mudou desses anos para cá, mas se eu fosse professora de história hoje tentaria trabalhar mais ou menos de forma parecida com a que minha professora de história trabalhou.
Espaço e tempo escolar
A escola (foto na capa do trabalho) era muito grande, com duas quadras de esportes – uma era coberta – , dois prédios de salas de aula, corredores largos – que facilitava na troca de sala nas aulas ambientes -, janela amplas, laboratórios, sala de vídeo, biblioteca, um grande teatro e um lindo jardim. E todos esses recursos materiais eram utilizados com freqüência pelos professores.
O primeiro prédio da escola abrigava a diretoria, coordenação, secretaria, sala dos professores e salas de aula. O segundo prédio, chamado de prédio anexo, foi construído para abrigar o colégio de aplicação do curso magistério. Mas na época em que era aluna do colégio o curso magistério não existia mais nessa escola. O prédio era usado para a biblioteca, a sala de reuniões do HTPC e salas de aula. A biblioteca não era muito utilizada. Por não haver funcionário ela estava sempre fechada. Mas sempre que alguém queria retirar um livro podia solicitar à coordenadora. Ela era responsável por abrir a biblioteca, emprestar os livros e receber a devolução. Mas com certeza ela poderia ter sido muito mais utilizada pelos professores durante o horário de aula.
A cozinha, o bar e o pátio ficavam ao lado da quadra de esportes, ao fundo dos prédios de aula.
A escola possuía dois laboratórios: o laboratório novo que abrigava os equipamentos mais novos e o mais antigo que abrigava o material de pesquisa – os animais. Esse segundo ficava dentro da própria sala de aula. Era uma “salinha” a parte. O chão da sala não era reto. Era como se fosse uma escada, onde as pessoas do fundo ficavam mais altas que as da frente. No “primeiro andar” da sala ficava a lousa, a entrada para o laboratório, a mesa do professor e uma grande pia usada para fazer os experimentos.
O teatro da escola tem capacidade para mais ou menos quinhentas pessoas sentadas. Atualmente ele é o único teatro existente na escola. É um lugar muito amplo, arejado, com palco, mezanino, cortinas, cadeiras, piano, etc. As aulas de vídeo geralmente eram nesse teatro, pois ele tinha mais comodidade do que as salas e abrigava duas turmas ao mesmo tempo. Ele era utilizado por todos os professores e por grupos de teatro da região que iam se apresentar na cidade.
Mês passado quando voltei à cidade de Ibitinga, passei pela escola e fique encantada com o jardim. Estava mais bem cuidado do que nunca. Esse lugar era utilizado algumas vezes na aula de ciências e na aula de educação física. O jardim está na foto acima.
Conclusões
Não sei se os professores discutiam que tipo de sujeito eles gostariam de formar. Mas desempenharam o seu papel de professor muito bem. Quase metade dessa turma com quem estudei estão fazendo universidade pública, mesmo sem nunca terem passado pelo ensino particular. Os que não estão fazendo curso superior conseguiram bons empregos e alguns montaram seu próprio negócio.
Não estou dizendo que a única coisa importante em uma formação é a conquista pela universidade pública. Estou dizendo que esses alunos conquistaram o que almejavam!
A educação que recebi nessa escola não recebi em mais nenhuma. Sentia-me realizada com aquelas aulas. Muito do que sou e do que escolhi como profissão é de influência dessa época.
Esses professores me ensinaram, mesmo sem nunca dizerem nada sobre isso, que a mais importante e transformadora profissão é a de professor.
Francielle Maria Chies










